O Estandarte - Edição 119 - Abril 2008
Pesquisa com células tronco, genoma, aborto...
Palavra da Presidência Rev. Assir Pereira
Sei que muitos de nós, só de ler o título acima, já torcemos o nariz. Por que a igreja tem de se meter em assuntos como eutanásia, aborto, clonagem, fertilização “extra-corpore”, genoma e, agora, o assunto do qual a imprensa tem se ocupado à exaustão, pesquisas com células tronco? Temos de reconhecer que, em todos estes assuntos, a igreja sempre sai atrás em sua manifestação, se é que ela se propõe a emitir opinião. Quase sempre ela opta pela omissão. Não gostaria que a IPI do Brasil recebesse a pecha de omissa e sem coragem para debater temas que afetam a sociedade. Isto nos levaria a estar à margem desta sociedade e deixar de ser sal, luz e fermento. Isto implicaria aceitar passivamente a agenda do mundo. Isto significaria abrir mão de nossa voz profética e perder nossa relevância como igreja daquele que jamais se omitiu, mesmo que isto representasse a cruz e o Calvário. Igreja Reformada e liberdade O fim da Idade Média e início da Moderna foi marcado pela ingerência da igreja nos assuntos do Estado, da ciência, das artes, etc. Não raras vezes, a igreja tomou o lugar Estado e, todas as vezes que assim procedeu, vimos os desastres que aconteceram. Não foi assim na “guerra santa” empreendida pelas Cruzadas? Que dizer da ingerência da igreja nos assuntos da ciência? Temos o exemplo da “santa inquisição” que levou para a fogueira grandes gênios da ciência e das artes. Quantos foram os retrocessos e retardamento de avanços tecnológicos e na qualidade da vida das pessoas? Quantas foram as descobertas para o bem da humanidade que poderiam ter sido antecipadas? Lutero, Calvino e os demais reformadores se levantam contra esta ética do absurdo. Todo debate entre religião e ciência deverá ser feito a partir da liberdade cristã e sob princípios éticos inegociáveis. Lutero entendia que a criatura de Deus tem de estar preparada e livre para debater sobre temas que lhe dizem respeito. Isto significa que a igreja deverá estar preocupada com tudo aquilo que diz respeito ao bem estar e felicidade do ser humano criado para glória de Deus. Ao deixar de exercer o mandato de Deus, silenciando-nos sobre estes temas, corremos o risco de ficar nas mãos de governos e cientistas irresponsáveis, que não pensam duas vezes, para apertar o botão da destruição do homem pelo homem, como ocorreu com a explosão da bomba atômica na Segunda Guerra Mundial. Células tronco Não sou cientista; sou pastor. Por isso, não irei tratar deste assunto com argumentos que não domino. Não posso, contudo, me calar sobre isso, porque meu rebanho está exposto aos apelos de uma imprensa marrom, de juristas com a Constituição na mão, cujas tribunas estão mais para púlpitos, de religiosos de plantão com padrões bíblicos e éticos questionáveis, cientistas altamente responsáveis entre outros nem tanto. Tenho dito como pastor que sou a favor da vida. Digo sempre que quero envelhecer com qualidade de vida. Por uma simples razão: sou morada do Espírito Santo. Quando vemos “religiosos” que saíram dos palácios episcopais para, novamente como ocorreu no período medieval, usando a Bíblia para fazê-la dizer o que a boca de Deus nunca disse, isto nos preocupa por várias razões. Primeiro, porque não lhes demos procuração para falar em nosso nome; segundo, por adotarem uma ética nada cristã; terceiro, por menosprezarem nossa inteligência; finalmente, por ignorarem milhares de vida que estão morrendo sem os avanços da ciência, instrumento dado por Deus para salvar vidas. O que sei e o que está escrito na lei é que os embriões a serem utilizados são aqueles que estão congelados há mais de três anos e que serão descartados, ou seja, serão jogados no lixo, serão mortos. O que sei e o que a lei diz é que eles só serão utilizados com o consentimento do casal de onde saíram estes embriões. O que sei, dito por ilibados cientistas, é que estes embriões têm em média cem células e que apenas as conhecidas como células tronco serão manipuladas geneticamente para serem colocadas num corpo doente, com o fim de restaurarem as células doentes. O que sei é que estas novas células garantirão aos doentes prolongamento da vida com melhor qualidade. A grande pergunta é: devemos matar vidas em potencial, jogando fora os embriões, ou usar estas vidas em potencial, que teriam como destino o lixo, para dar melhor qualidade de vida a pessoas com terríveis limitações de saúde? Se defendemos uma vida digna, como podemos ser contra o uso destes embriões para salvar e oferecer vida com dignidade? Se creio que Deus criou e dotou de sabedoria homens e mulheres para, ao longo dos séculos, trazerem melhoria na qualidade de vida para a humanidade, como condená-los e como determinar, de repente, que eles estacionem ou parem suas pesquisas? Estamos, na realidade, diante de questões éticas que nos desafiam. Não temos, infelizmente, um organismo que fale em nome dos evangélicos, como no passado fazia a Confederação Evangélica do Brasil, o que leva as igrejas históricas a terem de se manifestar isoladamente. O fato é que não podemos nos silenciar sob pena de assistirmos pessoas inescrupulosas e despreparadas falarem em nosso nome. A nossa autoridade para tratar destes temas vem da própria Escritura Sagrada, que afirma que Deus “coroou o homem com a glória e a honra de um rei...” e acrescenta: “Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão, e sob seus pés tudo lhe puseste... Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome!” (Sl 8. 5Lj, 9)
O Rev. Assir é o presidente da Assembléia Geral da IPI do Brasil
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